quinta-feira, 9 de abril de 2009

Eu não gosto de peixe. E agora?

Imagine a cena:

Domingo de Páscoa, ou ainda, Sexta-Feira da Paixão, ícones do calendário cristão, família reunida para o almoço, tudo ótimo até o momento em que, para a felicidade (e fim da agonia imposta pela fome) de todos, eis que surge o prato principal (os acompanhamentos não passam de coadjuvantes à mesa): o peixe! Sim, ele mesmo. Assado, cozido, frito, empanado, torrado e tudo o mais. Apoteótico.

E você (é, tinha que ser você, sempre e mais uma vez!), timidamente murmura:

_ Eu não gosto de peixe...

Pronto! Já é o bastante para que estranhamente todos os assuntos se encerrem e você se torne a bola da vez.

_ Como assim não gosta de peixe? Eu já vi você comendo peixe outras vezes!

_ Além do mais estamos na Semana Santa! Você tem que comer peixe!

Você, constrangido por ter tirado do pobre animal marinho o protagonismo daquele momento, declara como quem tenta normalizar a situação:

_ Calma, gente! Eu vou de saladinha, sem contar esse arroz branco que está com uma cara ótima. Quem fez?

Ninguém sabe porque felizmente a telepatia ainda é um recurso hollywoodiano, mas você pensa freneticamente no fato de que peixe você só come frito e feito pela mamãe.
Há sempre aquele que, depois do almoço, já na sobremesa, quando a maioria está aos bocejos, ressuscita o assunto:

_ Mas, me diz aí o que você costuma comer nesse feriado?

Esse é o momento em que ele te pega pelo pé. Sem ter muito o que dizer, você responde:

_ Ah, algum prato à base de bacalhau.

_ Mas bacalhau é peixe!

É, bacalhau pode até ser peixe, mas não é o peixe nosso de cada dia, aquele que se consegue em qualquer peixaria de esquina; em qualquer época do ano ele estará lá e se você tiver muita, mas muita paciência, pode até se aventurar a pescá-lo numa dessas praias da vida. Me diz aí: você conhece alguém, pode ser amigo de um amigo seu (e por aí vai), que já pescou bacalhau? Me apresenta porque eu adoraria ver a cabeça deste peixe. Existe uma aura de mistério em torno deste que dizem ser um representante das águas geladas, tanto que, às vezes, chego a pensar que poderia não ser um animal (uma espécie, com o nome escrito em latim), mas um processo. E, para tal, serviria qualquer espécie de peixe (meio conspiratório, eu admito).
Outro lugar em que o peixe insiste em roubar a cena é a praia. Basta estar na praia e sentir fome que lá vem ele, com a pretensão de sempre: a de ser uma unanimidade. Por que eu não posso simplesmente comer uma lazanha, um estrogonofe ou mesmo uma feijoada na praia? Até poderia se levasse de casa. E quando quero só um petisco, eis que aparece o maldito peixe como a mais badalada opção.
Agora, se eu perguntar o porquê de ser obrigada a comer peixe na Sexta-Feira da Paixão ou no Domingo de Páscoa, você certamente vai recorrer à religião para me explicar. Não tem problema, esse é o senso comum, reprodutor mesmo. Contudo, não costumo transgredir dogmas, apenas questioná-los.
É só para refletir.

Um comentário:

Lia Rangel disse...

Eu até gosto de peixe, o que eu não suporto é a idéia de ter que ceder a estes costumes sem muita lógica. É incrível como algumas "lendas" não morrem, tipo: dar água da primeira chuva do ano para a criança falar rápido, se a orelha esquerda estiver ardendo é pq tem alguém falando mal da pessoa, se o chinelo estiver virado a mãe vai morrer. Bem como dizem por aí, eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem!